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Guia clínico · Testes funcionais

Teste TUG e Escala de Berg: aplicação, pontos de corte e interpretação

Referência prática para geriatria, fisioterapia e atenção primária avaliarem risco de queda em idosos com TUG, Escala de Berg, velocidade de marcha, SPPB e FTSST — com exemplos reais de leitura e conduta.

Guia em PDF: protocolos e interpretação

Passo a passo de aplicação do TUG, Berg, SPPB, marcha e FTSST, tabela de pontos de corte, conduta por faixa de risco e casos comentados. Sem cadastro — baixe e compartilhe com a equipe.

Como aplicar cada teste

Teste TUG (Timed Up and Go)

Paciente sentado em cadeira com braços, costas apoiadas. Ao comando, levanta-se, caminha 3 metros em ritmo habitual, contorna o cone, retorna e senta. Calçado usual e dispositivo auxiliar permitidos. Cronometrar do comando ao contato final com o assento; registrar a melhor de duas tentativas após uma familiarização.

  • < 10 s — mobilidade independente, sem restrição funcional.
  • 10 a 13,4 s — desempenho limítrofe: monitorar e reavaliar em 6 meses.
  • ≥ 13,5 s — risco aumentado de queda (S 80% / E 100%): indicar treino de marcha e transferências.
  • ≥ 20 s — dependência funcional relevante: avaliação multifatorial completa e supervisão nas transferências.
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Escala de Berg (Berg Balance Scale)

14 tarefas de equilíbrio estático e dinâmico (sentar-levantar, permanecer em pé sem apoio, alcance funcional, girar 360°, apoio unipodal), cada uma pontuada de 0 a 4. Total de 56 pontos. Aplicação leva 15 a 20 minutos; usar cronômetro, régua, banqueta e cadeiras padronizadas.

  • 56 a 51 pontos — equilíbrio preservado; risco baixo.
  • 50 a 45 pontos — déficit inicial: treino de equilíbrio dinâmico preventivo.
  • < 45 pontos — risco elevado de queda (S 64% / E 90%): treino supervisionado e reavaliação de dispositivo auxiliar.
  • < 36 pontos — risco de queda próximo de 100% no período de acompanhamento: intervenção intensiva e adequação domiciliar imediata.
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Velocidade de marcha (4 metros)

Percurso de 4 metros em ritmo habitual, com 1 metro de aceleração e 1 de desaceleração fora da cronometragem. Duas tentativas; usar a mais rápida. Resultado em metros por segundo.

  • ≥ 1,0 m/s — desempenho compatível com independência comunitária.
  • 0,8 a 0,99 m/s — declínio funcional inicial: programa de caminhada supervisionada.
  • < 0,8 m/s — risco aumentado (≈1,5× de cair) e marcador de fragilidade.
  • < 0,6 m/s — risco elevado de hospitalização e dependência.
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SPPB e FTSST

SPPB combina equilíbrio (pés juntos, semi-tandem, tandem), velocidade de marcha e cinco sentar-levantar, com escore de 0 a 12. O FTSST isolado cronometra cinco repetições de sentar e levantar sem apoio dos braços.

  • SPPB 10 a 12 — desempenho preservado.
  • SPPB 7 a 9 — limitação moderada: treino resistido progressivo de membros inferiores.
  • SPPB ≤ 6 — alto risco de queda e de hospitalização; investigar sarcopenia.
  • FTSST > 15 s — fraqueza de membros inferiores associada a quedas recorrentes.
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Escala de Tinetti (POMA)

Avaliação observacional em duas partes: equilíbrio (9 itens, 0 a 16 pontos) e marcha (7 itens, 0 a 12 pontos), totalizando 28 pontos. O examinador pontua transferências, equilíbrio em pé, resposta ao empurrão esternal, giro de 360°, início da marcha, comprimento e simetria do passo, trajetória e tronco.

  • 25 a 28 pontos — risco baixo de queda.
  • 19 a 24 pontos — risco moderado: treino de equilíbrio e marcha supervisionado.
  • ≤ 18 pontos — risco alto (até 5× maior de cair): intervenção multifatorial e reavaliação de dispositivo auxiliar.
  • Subescore de marcha ≤ 8 — instabilidade dinâmica predominante: priorizar treino de marcha e adequação ambiental.
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Mini Exame do Estado Mental (MEEM)

Trinta pontos distribuídos em orientação temporal e espacial, registro, atenção e cálculo, evocação, linguagem e habilidade construtiva. Aplicação de 5 a 10 minutos. A nota de corte é ajustada pela escolaridade, e o resultado complementa a avaliação de risco de queda por medir o componente cognitivo da marcha.

  • Analfabetos — corte 20 pontos.
  • 1 a 4 anos de escolaridade — corte 25 pontos.
  • 5 a 8 anos — corte 26 pontos; 9 a 11 anos — corte 28 pontos.
  • Escore abaixo do corte — déficit cognitivo associado a maior risco de queda: reforçar supervisão, simplificar prescrições e envolver cuidador.
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Diagrama de decisão: do resultado à conduta

Como ler o resultado dos testes e o que recomendar em seguida — rastreio, bateria funcional, fatores modificáveis e o ramo de conduta de cada faixa de risco, conforme as World Falls Guidelines 2022 e o protocolo STEADI/CDC.

  1. 1Etapa 1

    Rastreio inicial (STEADI)

    Três perguntas definem se o paciente segue para avaliação funcional completa ou apenas orientação preventiva.

    • Caiu nos últimos 12 meses?
    • Sente-se instável ao caminhar ou ao levantar?
    • Tem medo de cair ou evita atividades por esse motivo?
  2. 2Etapa 2

    Bateria funcional

    Comece pelo TUG. Conforme o desempenho e o tempo disponível, complemente com os demais testes.

    • TUG — mobilidade e transferências (sempre)
    • Velocidade de marcha 4 m — fragilidade e independência
    • FTSST — força de membros inferiores
    • SPPB — desempenho global, quando houver tempo
    • Escala de Berg — déficit de equilíbrio já evidente
  3. 3Etapa 3

    Fatores modificáveis

    O escore funcional isolado não fecha conduta. Some sempre os fatores que podem ser corrigidos.

    • Medicamentos de risco (psicotrópicos, anti-hipertensivos, hipoglicemiantes)
    • Hipotensão ortostática (queda ≥ 20 mmHg na sistólica em 3 min)
    • Visão, calçado e ambiente domiciliar
    • Humor (PHQ-2), cognição e vitamina D
  4. 4Etapa 4

    Estratificação e plano

    Combine desempenho funcional + histórico de quedas + fatores modificáveis para chegar à faixa de risco e à conduta.

    • Documente a faixa de risco no prontuário
    • Defina a intervenção prioritária e quem executa
    • Agende a reavaliação conforme a faixa
Resultado combinado define o ramo de conduta
Risco baixoTUG < 10 s · marcha ≥ 1,0 m/s · sem quedas em 12 meses

Desempenho dentro da faixa de referência e sem histórico de queda. O objetivo passa a ser manter capacidade funcional.

Próximos passos

  • Exercício multicomponente 3×/semana (força + equilíbrio)
  • Orientação de segurança domiciliar e calçado adequado
  • Checagem de vitamina D e visão conforme rotina

Reavaliar: Rastreio anual

Encaminhar: Acompanhamento na própria equipe

Risco moderadoTUG 10–13,4 s · marcha 0,8–0,99 m/s · Berg 45–50 · uma queda sem lesão

Declínio funcional inicial ou queda isolada. Há janela de reversão com intervenção dirigida.

Próximos passos

  • Programa supervisionado de equilíbrio e força progressiva
  • Revisão de medicamentos de risco e da pressão ortostática
  • Avaliação da visão e ajustes no domicílio

Reavaliar: 3 a 6 meses

Encaminhar: Fisioterapia ambulatorial

Risco altoTUG ≥ 13,5 s · marcha < 0,8 m/s · SPPB ≤ 6 · Berg < 45 · queda com lesão

Risco aumentado com preditores objetivos. Indica avaliação multifatorial formal, não apenas orientação verbal.

Próximos passos

  • Fisioterapia com treino de marcha, equilíbrio e transferências
  • Desprescrição por critérios de Beers/STOPP
  • Correção de hipotensão ortostática e déficit visual
  • Adequação domiciliar e educação do cuidador

Reavaliar: 30 a 90 dias

Encaminhar: Geriatria + fisioterapia (avaliação multifatorial)

Risco muito altoTUG ≥ 20 s · marcha < 0,6 m/s · Berg < 36 · quedas recorrentes ou polifarmácia

Dependência funcional relevante e alta probabilidade de nova queda com lesão no curto prazo.

Próximos passos

  • Intervenção multicomponente supervisionada e individualizada
  • Prescrição de dispositivo auxiliar de marcha com treino
  • Plano de resposta à queda (contato, detecção, tempo no chão)
  • Revisão de causas médicas: síncope, arritmia, cognição, sarcopenia

Reavaliar: Mensal

Encaminhar: Equipe multiprofissional / ambulatório de quedas

Interrompa o fluxo e investigue imediatamente

  • Síncope, perda de consciência ou queda sem fator ambiental explicável
  • Queda com trauma craniano, especialmente em uso de anticoagulante
  • Suspeita de fratura, dor intensa ou impotência funcional nova
  • Declínio funcional abrupto em dias a semanas
  • Permanência prolongada no chão após a queda

Exemplos de interpretação na prática

Nenhum ponto de corte isolado define conduta. A leitura combinada dos testes com histórico de quedas, medicamentos e ambiente é o que estratifica o risco.

Caso 1 — Mulher, 74 anos, sem quedas prévias

TUG 11,2 s · Berg 52 · marcha 1,05 m/s · FTSST 13 s

Todos os parâmetros dentro da faixa de referência, com TUG limítrofe. Classificação: risco baixo. Conduta: exercício multicomponente 3×/semana, orientação domiciliar e rastreio anual.

Caso 2 — Homem, 81 anos, uma queda em 12 meses

TUG 15,8 s · Berg 43 · marcha 0,78 m/s · SPPB 8 · PAS ortostática −22 mmHg

TUG e Berg alterados, marcha abaixo de 0,8 m/s e hipotensão ortostática somados a queda prévia. Classificação: risco alto. Conduta: fisioterapia com treino de marcha e equilíbrio, revisão de anti-hipertensivos, adequação do ambiente e reavaliação em 30 dias.

Caso 3 — Mulher, 88 anos, duas quedas e polifarmácia

TUG 24 s · Berg 33 · marcha 0,52 m/s · SPPB 5 · FTSST não completou

Déficit grave de mobilidade e equilíbrio com quedas recorrentes. Classificação: risco muito alto. Conduta: intervenção multicomponente supervisionada, desprescrição por critérios de Beers/STOPP, avaliação de dispositivo auxiliar, suporte de cuidador e reavaliação mensal.

Tabela rápida de pontos de corte

TUG≥ 13,5s = alto riscoS 80% / E 100%
SPPB≤ 6/12 = alto riscoPreditor de hospitalização
Marcha< 0,8 m/s = risco1,5× risco de cair
FTSST> 15s = atençãoQuedas recorrentes
PHQ-2≥ 3/6 = rastrearFator independente
MEEMAbaixo do corte por escolaridadeDéficit cognitivo dobra o risco

Perguntas frequentes sobre interpretação

Dúvidas comuns de quem aplica TUG, Berg, SPPB, marcha e FTSST na prática clínica.

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